LC - O que mais surpreende é você ter conseguido
se camuflar durante tantos anos, não é mesmo?
CZ - O que ajudou muito foi eu ter ido
embora para Brasília, onde morei durante dez anos. Isso fez com que me esquecessem um
pouco, aqui no Rio.
LC - O que você foi fazer em Brasília, se
esconder?
CZ - Naaão. Fui a trabalho. Quando me
destacaram para lá, em 1973, queriam me dar um apartamento, mas eu nunca consegui morar
em apartamento. Então me disseram que casa só havia lá em Sobradinho. Não sabia onde
era, mas aceitei de imediato. Quando cheguei em Sobradinho, tive de andar a noite toda
segurando um revólver numa das mãos.
LC - Você nunca passou por nenhum aperto?
CZ - Passei. Certa vez preparei uma
história e fui levá-la na livraria do Hélio Brandão, que funcionava na Praça
Tiradentes. Quando cheguei lá, o Hélio estava cercado por um monte de detetives.
Disfarcei, folheando um livro das edições de ouro, mas fiquei tão nervoso que em vez de
pegar um ônibus para Anchieta acabei entrando num para Pavuna.
LC - Você nunca teve medo de ser delatado
pelos editores?
CZ - Não, porque eu nunca tinha
praticamente um editor. Fazia os desenhos e vendia para as pessoas que se interessassem em
publicá-los. Quem mais comprou meus originais, indo inclusive buscá-los em Brasília,
foi o Antônio Inácio. Outro que comprou muito desenho meu foi o Zé do Brito. Mas
cheguei a levar calote de muita gente.
LC - Hoje, então, você poderia ser um
homem rico, não é mesmo?
CZ - Que nada! Naquela época eu vendia
os meus originais por 3 mil réis. Essa quantia não pagava nem o papel vegetal,
praticamente.
LC - Você desenhava em papel vegetal?
CZ - Sim, para evitar o fotolito, que
encarecia muito mais o trabalho.
LC - Como surgiu a idéia de criar as
revistinhas de sacanagem?
CZ - Eu fazia uns bicos no Hospital da
Aeronáutica, no Galeão, e um colega de lá, o motorista Caldas, certa vez chegou com
duas revistinhas italianas de sacanagem, pedindo para que eu ampliasse os desenhos. Dali
em diante passei a criar as minhas próprias histórias e desenhos. Lembro que, como eu
não tinha em casa uma prancheta, desenhava em cima de um roupeiro velho que havia no
quarto.
LC - Você estudou desenho?
CZ - Não. Sempre fui autodidata. Basta
dizer que apenas fui completar o curso ginasial em Brasília, aos 58 anos de idade.
LC - Qual era a tiragem dos
"catecismos"?
CZ - Em média eram 5 mil exemplares de
saída. Mas A Pagadora de Promessa, por exemplo, vendeu mais de 30 mil exemplares. Agora,
a revistinha que mais vendeu mesmo foi Aventura de João Cavalo.
LC - As suas idéias libidinosas vêm desde
criança?
CZ - Não, não, não... Pelo
contrário, tive uma criação cristã e muito séria. No meu tempo de colégio todo fim
de ano havia uma exposição de desenho feita pelos alunos. Lembro muito bem que eu só
desenhava navios e caravelas.
LC
- Você é considerado como um dos responsáveis pela iniciação sexual da grande maioria
dos jovens dos anos 50 e 60. O que você acha disso?
CZ - Apenas tomei conhecimento disso
agora. Hoje muita gente me confessa que tudo o que aprendeu de sexo na adolescência deve
aos ensinamentos dos meus "catecismos".
LC - Sua mulher, dona Serrat, aceitava esse
seu trabalho numa boa?
CZ - Minha mulher (orgulhoso, conta que
já vai completar bodas de ouro) não concordava muito com os meus desenhos, não. É que
ela teve uma criação bastante rígida.
LC - E os seus filhos, você ocultava que
era o autor dos "catecismos"?
CZ - Dos filhos, ocultava, sim, mas eles
acabaram descobrindo e fizeram uma limpeza em tudo o que eu havia guardado. Tinha um
original de cada história (862 originais), só que hoje não tenho mais nada. Meus filhos
se apossaram de tudo.
LC - Você ficava excitado quando criava
suas histórias de sacanagem?
CZ - Normalmente sempre ficava. Isso a
pessoa não pode evitar, não é?
LC - Qual era a sua maior preocupação
quando criava os "catecismos"?
CZ - Sempre tive a preocupação de
criar histórias que tivessem começo, meio e fim. Nunca gostei de fazer um trabalho que
já iniciasse mostrando apenas sexo. Hoje, no entanto, percebo que as histórias já
partem apresentando sacanagem do início ao fim.
LC - Quer dizer que você ainda hoje gosta
de ler revistinhas libidinosas?
CZ - Na verdade nunca mais li. Aliás,
nunca mais vi nenhuma dessas revistinhas. O que acontece é que, atualmente, os jovens
estão dando preferência ao imediatismo e aos desenhos mais sofisticados.
LC - Os "catecismos" eram
publicados mensalmente?
CZ - Não tinha data certa, não. Cada
editor publicava a revista de acordo com as suas possibilidades. Havia também o problema
das gráficas, que tinham medo de fazer o serviço. A polícia dava muito em cima.
LC - Você chegou a fazer algum trabalho
para editoras de outros países?
CZ - Desenhei várias histórias para a
Argentina e para o Uruguai. Todas sem legenda, porque nunca aprendi a falar em castelhano.
Então, eu deixava o balãozinho em branco para que eles criassem os textos. Os desenhos
que fiz para os argentinos foram os que mais me renderam financeiramente.
LC - Você não sente vontade de voltar a
criar historinhas eróticas?
CZ - No momento estou com problemas na
vista. Tanto que vou operar catarata, mas se eu for bem sucedido na cirurgia e também me
recuperar totalmente da trombose... Quem sabe? Há três editores de São Paulo que estão
muito interessados no meu trabalho.
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