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Reportagem de 07/07/1992, sobre o falecimento
de Alcides Aguiar Caminha, conhecido como
Carlos Zéfiro
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O Tempo, o Vento e a Ninfeta

Key Imaguire Junior

Conheci Carlos Zéfiro em 1992, na mostra curitibana da Bienal Internacional de Quadrinhos. Nada a ver com a figura do "velhinho safado" à Bukovski, nem com aqueles personagens do Crumb - olhos arregalados, suando, lingua de fora, pant, droll, com a passagem de uma guria de short e botas. Parecia mais um burocrata de interior, daqueles que passou a vida sentado numa escrivaninha, diante de uma Remington Rand preta, dactylographando infindáveis processos administrativos. Magrelo, óculos fundo-de-garrafa, terno surrado - contava como produzia e distribuía seus disputados "catecismos" com um ar de garoto que assaltou a despensa em busca de biscoitos - não o do Joãozinho que espia as amigas da irmã no banheiro pelo buraco da fechadura. Apesar de sua produção se estender ao longo das décadas de cinquenta e sessenta, a descoberta do Clark Kent do Carlos Zéfiro era, então, coisa recente. As antologias do Otacílio d'Assunção e Joaquim Marinho, ambas de 1983, ainda desconheciam o alter ego Alcides Caminha. Causou preocupação, essa primeira exposição zefiriana: antes de mais nada, a gente conhece os relativismos da democracia brasileira. Depois, muito próxima do Pinocchio. E se, por exemplo, todas aquelas cenas explícitas, provocassem ereções em todas as versões do boneco de pau expostas? Bem na hora em que estivesse passando uma turma de criancinhas? Que fariam as professoras para conter o súbito acesso de priapismo coletivo? Complicado. Felizmente, no labirinto espacial que é o Centro de Criatividade da Fundação Cultural de Curitiba, havia um tipo de "bunker" que pôde ser reservado para o autor. O próprio Ota montou a exposição, volta e meia interrompendo o trabalho para uma corrida ao banheiro. O valor dos quadrinhos de Zéfiro é relativo - está mais para os lados do objeto de estudo. Tanto como autor como quanto desenhista, não tem qualidades excepcionais - foi um naïf do erotismo quadrinizado. Tinha uma certa habilidade manual - sem trocadilho - uma certa facilidade para o desenho, e usou isso para ganhar dinheiro. Os eight pages americanos tãopouco eram obras primas - sabe-se lá se ele viu algum e daí tirou a idéia. A produção americana era mais forçada no sentido caricatural - havia deboche, talvez de cunho moralista, onde Zéfiro punha mesmo era o seu tesão. O sexo explícito quadrinizado só irá adquirir foros de arte nos anos setenta, com a produção de Guido Crepax. Não me encham o saco - é claro que não estou fazendo comparações, apenas mencionando referenciais. Depois de algumas horas acompanhando os eventos inaugurais daquela Bienal, a maioria dos quais acompanhando a "lenda viva", eu estava convencido de que aquele respeitável senhor não era o Zéfiro coisa nenhuma - mas alguém que, de olho em quinze minutos de celebridade, se fazia passar por ele. Como uma velhinha assanhada que de repente surgisse dizendo: - Olha, eu sou Betty Page, a modelo desaparecida na década de cinquenta... Mas foi aí que "ela" apareceu. Franguinha proto-adolescente, lindona, num jeans stone washed ao qual se poderiam aplicar algumas dezenas de adjetivos sinônimos de espetacular, sensacional, extasiante - botinhas de saltos altíssimos e uma blusa de alcinhas à qual, para ser sincero, só consigo aplicar um adjetivo: inútil. Absolutamente inútil. Ela passou por nós dois toda sorridente, irradiando charme, e entrou no bunker onde estavam os vinte anos de sacanagem do Zéfiro, como quem veio especialmente para essa finalidade. Ele acompanhou-a com o olhar, sem perder nada do complexo gestual de ondulações, meneios e trejeitos, por cima dos óculos. E naquele olhar deu prá ver que quem estava ali era realmente o Grande Patriarca da Pornografia Brasileira...

(Key Imaguire Junior é arquiteto, escritor e estudioso das histórias em quadrinhos)

Contato: Cx Postal - 19016 Curitiba - PR CEP-81531/990

Capa do CD Barulhinho Bom
de Mariza Monte

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Uma garota Zefiriana

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Carlos Zéfiro na Bienal de Quadrinhos no Rio de Janeiro

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Entrevista de Carlos Zéfiro à Revista 'D, de 24/11/91
de Luciana Whitaker

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